No momento, meu interesse está voltado para a cena dos joguinhos livres de DRM. Isso me levou quase que inevitavelmente para o colo do GOG, a maior loja dedicada a esse modelo. Não vou mentir dizendo que sou um estudioso ou evangelista da preservação dos videogames. Eu não sou. Mas não é possível ignorar a importância de preservar jogos como forma de arte, parte da cultura e reflexo do espírito do tempo de quem os jogou.
Essa é parte importante da missão do GOG e de seu Programa de Preservação. Não apenas vender jogos, mas preservá-los e mantê-los jogáveis através do tempo e das mudanças de hardware que o acompanham. Além de deixá-los livres de qualquer gerenciador de direitos digitais, os famigerados DRMs. Um diferencial importante na escolha de compra de um jogo, seja antigo ou atual, é saber que ele estará disponível e rodando daqui dez ou quinze anos, sem depender de servidores, autenticações ou permissões futuras.
Em entrevista ao site eslovaco Sector, Piotr Gnyp, Diretor Sênior de Relações Públicas do GOG, falou sobre o Programa de Preservação da empresa e deu detalhes interessantes sobre o que acontece nos bastidores dessa missão. Abaixo, destaco os trechos mais relevantes sobre o tema.
Trechos da entrevista com Piotr Gnyp sobre preservação e jogos clássicos
Sector: O GOG é há muito tempo uma defensora da preservação de jogos. Você poderia explicar a filosofia por trás do Programa de Preservação da GOG e o que vocês pretendem alcançar com ele?
Piotr Gnyp: O Programa de Preservação da GOG é a nossa promessa aos jogadores de que determinados jogos comprados na GOG continuarão funcionando bem em computadores modernos, mesmo após o fim do suporte oficial dos desenvolvedores ou publicadoras originais.
A preservação de jogos sempre fez parte do DNA do GOG. A ideia original por trás do Good Old Games era trazer de volta títulos clássicos que já não estavam disponíveis comercialmente ou simplesmente não funcionavam adequadamente em hardware contemporâneo. Mas o tempo não para, e a tecnologia também não.
Há alguns anos, analisamos mais de perto alguns dos jogos antigos já disponíveis no GOG. Eles ainda eram jogáveis, mas nem sempre nas condições que acreditávamos que os jogadores mereciam. Pequenas mudanças em sistemas operacionais, drivers ou hardware começaram a afetar sua estabilidade e compatibilidade. Foi um momento importante para nós, e mostrou o quão rapidamente os jogos podem se degradar tecnicamente, mesmo em uma plataforma dedicada a clássicos.
O Programa de Preservação do GOG foi nossa resposta a essa constatação. Graças a quase duas décadas de experiência e às ferramentas internas que desenvolvemos ao longo dos anos, agora somos capazes de manter e atualizar títulos clássicos em uma escala muito maior. Os jogos incluídos no Programa são regularmente testados, aprimorados quando possível e necessário, e mantidos por nós para que continuem funcionando como esperado em sistemas modernos.
Atualmente estamos nos aproximando de cerca de 300 títulos no programa, e nosso objetivo de longo prazo é claro: eventualmente abranger todos os jogos clássicos disponíveis no GOG. Não apenas mantê-los à venda, mas garantir que permaneçam genuinamente jogáveis por muitos anos.
Sector: Além de simplesmente disponibilizar jogos antigos, o programa às vezes atualiza ou modifica títulos, adicionando novos recursos ou melhorando a compatibilidade. Você poderia explicar como escolhem em quais jogos trabalhar e que tipo de mudanças ou melhorias costumam fazer?
Piotr Gnyp: A resposta curta é: é sempre uma mistura de importância cultural, interesse dos jogadores e realidade técnica.
Quando decidimos quais jogos priorizar no Programa de Preservação do GOG, primeiro analisamos a relevância. Isso pode significar aniversários, renovado interesse em torno de uma franquia ou o impacto cultural mais amplo de um título. Popularidade também importa, nós prestamos muita atenção ao que os jogadores ainda estão comentando, jogando e pedindo.
Às vezes, as prioridades mudam por causa do que está acontecendo ao nosso redor. Remoções de catálogo, fechamento de estúdios ou mudanças do lado das publicadoras podem colocar um jogo mais acima na lista, simplesmente porque queremos garantir que ele não desapareça silenciosamente.
E há também o lado técnico. Sempre precisamos ser honestos sobre o que é realmente possível no momento. Alguns jogos podem ser aprimorados imediatamente com as ferramentas e processos que já temos. Outros exigem mais preparação e, nesses casos, preferimos adiar em vez de apressar algo que não atenderia aos nossos padrões.
Quanto às mudanças em si, elas são muito práticas. Na maioria das vezes, estamos falando de funcionalidades básicas que jogadores modernos esperam: suporte a controle, compatibilidade com sistemas operacionais atuais, resoluções widescreen e ultrawide, comportamento adequado ao usar alt-tab, overlays ou salvamentos na nuvem. Às vezes a lista fica surpreendentemente longa, o registro de alterações de Cold Fear é um bom exemplo de quanto trabalho pode ser necessário em um único título.
Sempre que possível, também aplicamos correções técnicas: melhorias de estabilidade, correções de bugs ou ajustes de desempenho, especialmente quando sabemos que isso melhora significativamente a experiência do jogo hoje.
Sector: Tecnicamente falando, quão desafiador é modernizar ou corrigir jogos clássicos mantendo fidelidade à experiência original? Você pode compartilhar um exemplo específico de um título que exigiu muito trabalho?
Piotr Gnyp: Muitas vezes é muito mais desafiador do que as pessoas imaginam, porque você não está apenas “fazendo o jogo rodar”. Está tentando fazê-lo funcionar corretamente em hardware moderno, sem mudar a forma como ele é, parece ou se comporta. Isso geralmente significa muito trabalho cuidadoso e pouco glamouroso.
Um ótimo exemplo é Cold Fear. Deixar o jogo no estado com o qual ficamos satisfeitos exigiu centenas de horas. Uma grande parte do processo foi a clássica reprodução de bugs; rastrear problemas que só aparecem em sistemas modernos, entender por que acontecem e corrigi-los sem introduzir novos erros. Além disso, houve trabalho de redimensionamento para resoluções modernas, melhorias de estabilidade, suporte a controle e uma longa lista de ajustes de compatibilidade que os jogadores de hoje simplesmente esperam.
O que torna esse tipo de trabalho complicado é que quase toda mudança pode ter efeitos colaterais. Corrigir a renderização pode afetar o tempo de resposta. Redimensionar a imagem pode quebrar elementos da interface. Melhorar a compatibilidade pode introduzir problemas sutis de jogabilidade. Por isso, cada passo envolve testes, iteração e muita cautela.
Nós inclusive documentamos esse processo em detalhes em um vídeo, que mostra o quanto de esforço é necessário para preservar adequadamente um único título.
Sector: Na sua perspectiva, por que você acha que os jogadores continuam voltando a jogos clássicos, mesmo décadas após o lançamento? O que torna esses títulos ainda atraentes no cenário atual dos games?
Piotr Gnyp: Há algumas camadas nisso, e a nostalgia é apenas uma delas.
Pesquisas mostram de forma consistente que os jogadores retornam a jogos clássicos não apenas porque se lembram deles com carinho, mas porque esses jogos estão ligados a experiências formativas. Muitas vezes são os jogos com os quais crescemos, aqueles que moldaram a forma como pensamos sobre jogabilidade, histórias ou até sobre nós mesmos. Voltar a eles não é apenas lembrar do passado; é reconectar-se com um momento em que essas experiências tiveram importância pela primeira vez.
Mas não se trata apenas de nostalgia simples. Muitos jogadores retornam porque querem reviver uma jornada, às vezes para ver se ela ainda parece a mesma, às vezes para descobrir que não parece. Você volta mais velho, com expectativas e vivências diferentes, e de repente lê a história de outra forma, percebe temas que antes passaram despercebidos ou entende personagens sob uma nova perspectiva.
Também há um motivo muito prático: os jogos estão envelhecendo mais lentamente do que nunca. Um título lançado há dez anos, como The Witcher 3: Wild Hunt, ainda parece e roda de forma impressionante hoje, e isso sem mencionar jogos da era do PlayStation 3 e do Xbox 360 que muitos jogadores simplesmente não tiveram a chance de jogar quando foram lançados. Para muita gente, este é um momento ideal para finalmente recuperar clássicos que ficaram para trás.
E, às vezes, a experiência é… humilde. Pessoalmente, redescobri que alguns jogos de ação rápida ou que exigem muita habilidade, dos quais eu gostava anos atrás, hoje são bem mais difíceis do que eu lembrava. Reflexos mudam, paciência muda, e isso também passa a fazer parte da experiência.
Por fim, há a acessibilidade. Jogos clássicos não exigem hardware de ponta. Você não precisa da GPU mais recente, enormes quantidades de RAM ou um SSD topo de linha para aproveitá-los. Isso reduz a barreira de entrada e torna muito mais fácil revisitar, ou descobrir, títulos antigos.
A entrevista completa, em inglês, está no site Sector. Nela, Gnyp também fala sobre jogos populares na Eslováquia e na Polônia, disponibilização de mods, negociação de jogos atuais, a aquisição do GOG por seu cofundador e mais. Recomendo a leitura.
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